terça-feira, 11 de janeiro de 2011

"Que vontade eu tenho de sair, quanta coisa que vou conhecer..." (Carro de Boi-Milton Nascimento)

O dia amanhecera nublado. Sentiu vontade de desligar o despertador, ajeitar a coberta e virar para o outro lado. Esquecer das próximas horas, esquecer do que estaria por vir. Levantou-se, tomou um banho mais rápido de sua vida. Não quis comer, mas sabia que deveria. A viagem seria longa. Sente-se enjoada só de pensar no gosto do remédio Dramin. Seu irmão, sonolento, pede para que ande depressa com as últimas arrumações, a hora estava cobrando a sua atenção.
Desceram a rua sem muita conversa. O coração dela mais uma vez parecia saltar pela boca, afinal, desde que se entendia por gente, não ficara tão longe de casa por muito tempo... e sozinha! Mas respirou fundo, despediu-se rapidamente de seu irmão e entrou no ônibus que a deixaria na rodoviária.
Lembrou-se de que seu estômago estava vazio e assim não poderia permanecer. Pediu um cafezinho e um pastel de queijo (ela nunca se importou com horário determinado para cada tipo de comida, se desse vontade, comeria o que quer que fosse). A chamada para o seu destino. Acabou. Precisava sair da redoma de vidro em que se encontrava e encarar com fé a vida nova que ela mesmo buscara.
Primeira etapa da viagem completa. Parada para o embarque em seu próximo ônibus. Calor. Avistou um freezer de sorvetes Kibon, lembrou-se do tão apreciado Tablito, permitiu-se. Gostava tanto dessa iguaria que achava o cúmulo como as pessoas mordiam o picolé de qualquer jeito, ela não. Sentia prazer em ouvir a casquinha de chocolate branco se partir, logo após a refrescante parte de creme e só assim, mordia com cuidado o pedaço de chocolate ao leite. Olhou para a sua frente e percebeu que havia um rapaz vestindo a camisa da universidade ao qual ela iria se matricular. Com certa timidez (que só lhe aparece em horas impróprias) aproxima-se dele e pergunta se poderia lhe ajudar a chegar ao seu destino, mais do que isso, se poderia lhe indicar com detalhes a localização da entidade. O rapaz prontamente se oferece para acompanhá-la. O ônibus estaciona na plataforma. Entraram juntos. Após as devidas apresentações, descobrem que são conterrâneos e que ainda possuem amigos em comum.
O lado bom de se tornar dependente de remédio contra enjôo é que o principal efeito que ele proporciona é o sono. Profundo e inevitável. Ela pedira desculpa pelas inúmeras "abrições" de boca ao decorrer das conversas, explica-lhe o motivo e logo adormece.
Um cutucão no ombro. O rapaz avisa que chegaram ao destino final. Enfim, um outro lado das Minas Gerais ainda reconhecido apenas por cartões postais e livros escolares de História.
Sol quente e um ceu azul de se admirar. Se ela tivesse em mãos uma câmera fotográfica, certamente tiraria muitas fotos. Mas ainda assim, com todo esse esplendor de paisagem, sua mente girava feito pião. Queria mesmo é retornar. Esqueci de mencionar a participação do namorado dela nesta questão.
Como iniciar este episódio? Poderia afirmar com alegria a sua enorme contribuição para o alcance deste sonho de infância. Poderia. Mas prefiro ser mais realista e identificar aquilo que ela demorara anos (mais exatamente 4 anos) para descobrir: Inveja e Receio. O primeiro sentimento seria explicado pela a sua incapacidade de prosseguir com os seus estudos, sempre justificado pela falta de tempo que o trabalho público oferecia ou pela necessidade de se descobrir a verdadeira vocação. Receio. Bem, esse para mim, para aqueles de boa índole e, principalmente para ela, pode ser considerado o pior e o mais agressivo. Quando duas pessoas se aproximam e decidem dividir momentos de suas vidas, precisam elaborar a chamada "confiança". Voltemos ao que nos interessa realmente.
Picadas de agulhas nos braços. Sofrendo por estar longe de seus entes e ainda passar por isto? Sim. 
Amiga de longa data, longas temporadas nos palcos. Ela se lembrava do convite feito para que pudesse pernoitar em sua casa. A essa altura, o rapaz que a acompanhara até a universidade já se poderia considerar o mais novo amigo. Assim seja. A pequena residência parecia uma casinha de boneca abandonada por uma criança desleixada. Cheirava mofo. Não possuia pia. A amiga, sorrindo, confidencia que lavava as panelas no  apertado banheiro. Eca. O rapaz ficara assustado e transparecia isso para elas. Antes da despedida, ele insiste várias vezes para que ela fique em sua kitnet, pois ele se arranjaria na casa de alguns amigos. Ela já sentira confiança naquele que fora o seu "salvador", mas não poderia negar o pedido tão singelo de sua amiga. Resolveu ficar. 
Noite comprida. Braços doloridos e febre já anunciada pela enfermeira que aplicara as vacinas. Ela lembrou de tudo o que vivera até ali e rezou. Rezou muito. Pediu a Deus para que aquela noite terminasse. 
Amanheceu. O primeiro pão de queijo a gente nunca esquece, disse a amiga. Comeram com vontade. 
Ela só queria voltar para casa. E assim fez. Mesmo sabendo que essa volta seria desfrutada por poucos dias, pois suas aulas começariam em breve.
A viagem de volta fora mais rápida, pensava ela.
Melhor do que estar em casa é estar em casa e comer largos e deliciosos pedaços de bolo de chocolate! Seja feita a sua vontade... Amém.

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