sábado, 15 de janeiro de 2011

Pai, o mundo vai acabar?

A primeira kitnet a gente nunca esquece. Essa frase percorria a mente da moça. Dentro do quarto havia um pedaço de papelão, pois, como ela não possuia cama (apenas três colchonetes emprestados pelo seu amigo), ela pedira ao dono para que aquele papelão permanecesse. É, não seria mesmo fácil a sua permanência naquela cidade. Mas tentava se concentrar em seu objetivo maior: fazer a faculdade dos seus sonhos!
Tudo o que possuia caberia facilmente dentro daquele quarto. Um travesseiro, duas cobertas, alguns lençóis e fronhas, um porta garrafa de isopor (suposta geladeira) e uma incrível e resistente televisão de 5 polegadas (preto e branco). Roupas? Apenas as mais esculachadas... não queria se enfeitar, não havia motivo.
O clima daquela cidade era estranho para ela. Muitos turistas se encantavam, dizendo ser um clima "europeu". Até aquele momento não entendia ao certo o verdadeiro significado desta expressão "clima europeu", mas confiava no bom gosto dos visitantes. Para a sua surpresa, ao seu lado, havia uma outra moça que também cursava o seu curso, ou melhor, era sua colega de sala. Sentia-se mais segura com essa presença. 
A primeira noite naquele lugar lhe parecia agradável. O ceu estava encoberto e fazia um pouco de frio. Como ela não possuia fogão (este, assim como a velha geladeira de sua casa) chegariam dentro de alguns dias, mediante a boa vontade do amigo de seu namorado e porque não, a disposição dele também. Não se importava. Apenas gostaria de tomar um chá quentinho e não podia!
O que não tem remédio... bom, arrumou as roupas, escovou os dentes e ligou a tv. Sentiu vontade de chorar, mas essa vontade era pequena tamanho o seu cansaço físico. Adormeceu.
O despertador dera o sinal de vida. Eram 9 hrs da manhã, mas parecia ser bem mais cedo. Ela levantou-se meio que atordoada, seguiu em direção da janela e qual fora a sua agonia? A paisagem havia desaparecido. Tudo... as árvores, o quintal, a vista da cidade... tudo branco! Sentiu uma pontada no peito.
O mundo está acabando? E quanto mais observava aquela "falta de paisagem", mais a cor acinzentada tomava conta de tudo lá fora. Lembrou-se dos filmes de suspense, onde essa mudança brusca de clima e temperatura prenunciava algo sinistro. Ficou estática perante a janela. Nunca havia presenciado aquilo tão de perto. O telefone toca. Tomou um pequenino susto. Sua mãe, atenciosa, perguntava como havia passado a noite. Ela responde a verdade, dormira feito pedra! Em seguida, ela começa a descrever aquilo que estava observando. Realmente, a imagem de sua janela fora se transformando em seu pensamento. O que antes lhe aterrorizou, aos poucos, tornara-se algo magnífico. Um presente de boas vindas. Agradeceu mais uma vez a Deus por lhe proporcionar aquele cenário tão raro. 
Arrumou os seus cobertores, pegou algumas peças de roupas e se dirigiu ao banheiro. Queria se sentir limpa e cheirosa para mais um dia de aula. 

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