sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

"Quando os meus sonhos vi desmoronar, me trouxestes outros pra recomeçar..." (Humano Amor de Deus) (

Eis que a hora da partida se aproxima... o coração mais uma vez acelera! Ela estava pronta, com a mochila cheia e pesada nas costas, mais algumas bolsas de viagem igualmente carregadas de roupas, calçados, alimentos( sim, ela preferia carregar todo o peso a ter de pagar mais caro por produtos e alimentos de baixa qualidade). Ela nunca se considerou uma "perua", mas algum tempo mais tarde é esse o apelido carinhoso que os seus dois amigos (fundadores do Trio Butantan) vieram a lhe chamar.Levava fotos dos amigos, da família e do teatro, sua grande paixão. 
Ela respirava fundo, afinal, já suspeitava que dali em diante, sua vida seria transformada de forma absurda. Segui o seu destino. Remédio contra enjoô e biscoitos salgados. Adormeceu ao som de Roupa Nova. Chegou atrasada na aula. Foi preciso descer na rodoviária, subir ao bairro que o seu amigo (aquele que lhe fornecera a kitnet) e despejar toda a sua bagagem. Ah, consta registrar que, entre essas bagagens, haviam também brigadeiros e pirulitos de chocolates que ela e sua mãe se dispuseram a fazer para contribuir nas despesas.
Separou uma pequena quantidade das duas guloseimas e correu para a aula. 
A turma era formada por 15 moças e apenas 5 rapazes. Ela estava calada, triste... sozinha! Aos poucos, foi se acomodando em um canto da sala e esperava... 
Muitos riam. Conversavam animadamente sobre as festas e as pessoas que já haviam conhecido até ali. Ela não compartilhava destas conversas, não ficara naquela cidade em nenhum dos três dias de prova do vestibular, sempre fazia o retorno para a capital. Não estava ali para festas, pensava ela. Na verdade, ela não estava nem aí para nada que se remetesse àquela cidade. Rezava para que o final de semana chegasse rápido e só. Sua mãe e seu namorado estiveram lá, em busca de um lugar para que ela vivesse. Ela não pensou em morar com outras pessoas. Sempre teve a consciência de que se fosse para dividir casa com mais mulheres, com certeza seria acusada de assassinato!
Ela aprendera a primeira lição de vida naquele lugar: cidades históricas são exploradoras! Nossa, por pouco menos de um salário mínimo não conseguiria alugar nada... e ainda mais depois do "grande" incentivo de sua amiga ( aquela da casa de boneca velha), que agora decidira morar em um lugar detestável e assustador (um ex-butequim). Seu namorado era um fresco de marca maior. Não suportava nada fora do lugar, sentia coceira no nariz por qualquer mudança de clima...rs... sofrera naquele final de semana. Foi-se. Teve que ir trabalhar. Apenas a mãe agora lhe fazia companhia. O amigo aparecia vez por outra na kitnet dele para pegar outras roupas. Deus lhe enviara na vida daquela moça. Nunca reclamou pelo espaço concedido... ela permanecera lá por quase duas semanas! Após o terceiro dia de longas caminhadas, subindo e descendo ladeiras feito escravas, uma indicação valiosa. Uma recepcionista que se encontrava do lado de fora da pousada, revela à ela e sua mãe que mais a frente, bem mais a frente, haveria um local para se alugar. Elas subiram com certo cansaço, mas colocando as decisões nas mãos de Deus. Ele proporcionou a vitória dela no vestibular, agora precisamos que ela permaneça aqui, pensava a mãe.
Chegaram ao local indicado. Uma construção inacabada, com uma pequena placa de "alugo". Riram. Onde ficaria esse lugar? Foi então que um rapaz desceu do carro, já ligado, e perguntou se elas estavam procurando algo. 
Deus está com vocês! Disse o rapaz. Eu tenho aqui a última kitnet para alugar, mesmo assim, por causa de um homem que iria casar e morar aqui, mas terminou o compromisso e com isso, desistiu da locação. A sensação da entrada era de que enfim, conseguiriam resolver a grande agonia que estava em seus corações. A kitnet ainda estava em reforma. O rapaz prometera a entrega em uma semana (por isso a demora da estada dela na kitnet do amigo). E o preço? Sim,mais uma vez colocara as mãos neste lugar... seria razoável. Bem mais atrativo do que as demais propostas recebidas. Tudo feito. Elas voltaram para a kitnet com o alívio estampado no rosto. Lancharam em um triller famoso do bairro e foram repousar os corpos tão prejudicados pelas caminhadas sem rumo.
No dia seguinte acordaram cedo e prepararam os doces para venderem na praça. Vergonha? Jamais tiveram, afinal, estariam trabalhando. E ela precisava mesmo destes trocados para a sua permanência ali.
Tudo o que é bom dura pouco... a segunda feira lembrava que era o momento da mãe retornar para a casa. Ela estava triste, mas tentava demonstrar ansiedade para as aulas. Foram para a rodoviária. Ao longo do percurso, a mãe aconselhava sobre o comportamento. Elas riam, mas sabiam que ambas não queriam essa separação. Era necessário.
O adeus visto por ela fora inesquecível. Parecia uma ida sem volta. Assim que o ônibus saiu de suas vistas ela chorou. Tentou esconder as lágrimas atrás dos óculos escuros, mas elas rolavam. A aula... correu na rua.
O silêncio predominou durante aquela tarde. Poucos conversavam com ela, mas talvez nem fosse mesmo o momento de se abrir. Calou-se. Voltou para a kitnet. As horas passaram. O telefone não deu sossego, primeiro o namorado, depois a mãe. E o dia também havia ido embora. Ela chorava. Pensava em sua vida naquele lugar. Moraria sozinha...mas isso não era problema. O fator de maior emoção era a distância. Não havia mais como voltar...
Ela entendeu (ou pelo menos afirmava que havia entendido) que para se vencer na vida, precisaria mesmo sacrificar-se durante um tempo. Mais exatamente, por quatro anos!
Rezou. 




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