Ela ia se virando para não sofrer naquela cidade tão diferente. Descobriu um cantinho para relaxar e pensar na vida após os longos almoços de domingo no restaurante universitário. Esse lugar era o muro baixo da igreja localizada ao lado da principal praça. Um visual extraordinário, cultura impregnada em todo os ornamentos.
Quando o lugar estava ocupado pelos inúmeros turistas, ela sentia certo ciúme. Era mesmo um lugar especial.
Contentava-se também em sentar nas escadas do monumento em honra ao Tiradentes. Passava horas apenas olhando o movimento daquela pequena cidade. As vezes saia com os seus doces e vendia. Outras, comprava um pequeno sorvete e já se sentia acolhida.
Os novos amigos de sala sempre a convidavam para se distrair em suas casas, em suas repúblicas. Mas ela não sentia ânimo. Na verdade, era desencorajada pelo namorado. Ele dizia que esses lugares não seriam boa influência e que a maioria dos "carinhas" que ali moravam, só estariam interessados em se aproveitarem das "menininhas". Ela não concordava, mas em nome do bom relacionamento (e evitando a eterna falação em seus ouvidos) sempre se desculpava por conta dos afazeres domésticos ou por algum trabalho com o prazo apertado de entrega.
E assim o tempo passava. O seu final de semana, quando não se proporcionava ao luxo de retornar à sua cidade natal, procurava se ocupar com a limpeza exaustiva de sua kitnet. Muitas vezes ela confessa ter deixado de comprar algo mais consistente para se alimentar, pensando em complementar a verba da passagem.
Nunca se imaginou ser dona de casa. Ela se considera uma mulher independente. Não gosta de ficar trancada dentro de casa, nunca gostou. Mas aquele lugar não a incentivava em nada a sair e desbravar tudo ao seu redor.
A grana sempre lhe foi oferecida, por conta do árduo trabalho de costura de sua mãe. Quantas vezes ela surpreendera a sua mãe com um pequeno papel nas mãos calculando se o valor da pensão supriria as contas. Respeitava e admirava demais a sua mãe... sua heroína! Que mulher sábia...
O final de semana se aproximava e ela já não conseguia mais economizar os poucos trocados. Com muita timidez e até mesmo vergonha, comentara ao telefone com a sua mãe o acontecido. Havia em seu bolso apenas um pouco mais do que o dinheiro da passagem de ônibus. Gastaria assim que saísse de casa. Em sua universidade estava acontecendo um evento onde escolas do município e outras interessadas são convidadas a conhecerem os cursos superiores, como incentivo na escolha das profissões. Ela estava escalada na apresentação prática do seu curso, em troca de um certificado de participação.
Entre os escalados, haviam aqueles de sua sala que mais se identificava, ou que pelo menos davam mais atenção a sua presença.
Começou ajudando na divulgação do curso, distribuindo panfletos. Em seguida, reproduziu com o auxílio de um professor alguns dos exercícios realizados em sala de aula. Como era difícil sentir todos aqueles adolescentes olhando os seus feitos, ela era mesmo tímida fora do palco, da representação.
Lembrou-se de sua situação financeira. A tristeza tomara conta do seu ser. Estava longe de casa, dos amigos e sem dinheiro. O agravante foi que neste dia, diga-se de passagem uma sexta-feira, sua mãe não conseguira depositar diretamente no caixa e sendo assim, seu dinheiro estaria disponível para saque apenas na segunda-feira a tarde. Estremeceu por dentro, não que lhe faltava alimentos em casa, mas precisava de qualquer valor em suas mãos para uma emergência.
Andou pelo corredor do departamento refletindo o seu estado. Muitas pessoas circulavam por ali. Foi quando, seja por milagre de Deus (pensava ela) ou por "jogo de cintura", ouvia a reclamação de duas professoras em relação aos altos preços de diárias para a acomodação da excursão. Mais que depressa, ela tomou coragem e abordou as professoras... precisava fazer aquilo. Ofereceu-lhes a sua kitnet. Ofereceu-lhes uma diária simbólica em relação aos demais preços, mas para ela, que naquele momento já se encontrava sem qualquer moeda no bolso, serviria como prêmio de loteria.
Não possuia móveis direito. Agora o fogão e a geladeira já estavam em seus devidos lugares. No mais, a kitnet perfeitamente acomodaria, segundo ela, umas 10 pessoas!
A multiplicação ocorrera. Em sua kitnet dormiram 15 pessoas! Mais 8 pessoas se espremeram na kitnet vizinha que estava sob sua responsabilidade. Ela pediu abrigo a uma outra vizinha, prometendo que no dia seguinte bem cedo desocuparia a sua casa. Quantas conversas. Aquelas pessoas tão humildes juntas por uma necessidade... comera um pouco do prato típico da região dos seus inquilinos, mas passara mal (muito tempero e pimenta).
Dinheiro no bolso e felicidade no rosto. Propôs apresentar a cidade, como guia turística. Pagaram-lhe o almoço, compraram-lhe presentes. Ela ainda sonhava com aquilo tudo. Sua mãe ficara impressionada com a sua desenvoltura.
Despediram-se com emoção. Aquelas 21 pessoas sairam da cidade cheias de boas recordações. Ela ficara ali, cheia de biscoitos e presentes. Tomou banho e se arrumou para ir à missa. Precisava dedicar um tempo àquele que lhe protegia.
Ela concluira mais uma lição de vida... Deus conhece os nossos sofrimentos e necessidades!
O que seria de nós mulheres sem o aroma, sabor e satisfação que o chocolate nos proporciona? Ele se encontra presente em todos os meus momentos: alegria,dor, saudade,ansiedade,paixão... só de falar nele já dá água na boca!Pois bem, me rendo... aqui colocarei reflexões e memórias de uma artista incansável, que luta por seu "lugar ao sol".
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